quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Conte as suas férias

Passaram uma redação no colégio, e o tema era "corrupção". Com um tema clichê desses você tem que ser criativo. O que eu consegui fazer foi isso aí.

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A polícia pega o menino com uma dólar de maconha, poderia levá-lo para a delegacia, fichá-lo, tomar as medidas cabíveis, mas basta que ele tenha uma nota de vinte, que ele vai embora ileso. A polícia descobre o político criando mega-empresas fantasma de lavagem de dinheiro, movimentando milhões internacionalmente, mas basta que o político faça um depósito com mais de seis zeros à direita, que ele sai ileso. A corrupção no nosso país vai do infinitesimal ao infinito e além, está em todas as camadas, virou um aspecto cultural. As pessoas se acostumam. Um policial não ganha muito, mas se ele for extorquir todo usuário que ele encontra, numa semana pode conseguir facilmente mais de um salário mínimo extra. Já é motivação o suficiente para não fazer greves por salário, com uma fonte de renda alternativa boa dessas. E se uns quinhentos reais por semana já são motivação o suficiente, imagine milhões e milhões por mês. Ninguém tem interesse em acabar a corrupção.

Do jeito que vai, não é nem perto do exagero dizer que é impossível acabar a corrupção. Teria que se fazer uma campanha pesada e intensiva, se bem que provavelmente muito dinheiro de origens duvidosas iria passar por essa campanha. Nada está a salvo da corrupção, e nada é sagrado o suficiente para ser intocável. Nem Deus. As igrejas Universais que o digam.

Poderíamos, quem sabe, incitar uma campanha anti-corrupção no submundo. Se um traficante se recusar a ser extorquido por policiais, bem que podia ir preso, mas fichar um processo de extorsão contra os policiais. Já era um dinheiro bom a mais, e a serviço da comunidade. E que policial iria querer extorquir se não pudesse mais nem confiar no "mau-caráter" dos traficantes?

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sistema Internacional de Unidades

Você desce de um ônibus lotado na Epitácio, e sua meta é algum ponto no coração do Bairro dos Estados, no meio daquelas ruas todas iguais, debaixo do sol quente. Uma sede se apodera de você, que nem se anima em começar a longa peregrinação. Você compra uma latinha de cerveja para servir de mantimento. A latinha acaba, e no meio do caminho compra outra. No percurso final, mais outra. Quando finalmente chega ainda te olham torto.
"Que demora da porra! Viesse rastejando, foi?"
"Vá se foder, tem idéia de quanto eu aindei?"
E é aí que você nota que nem você tem idéia de quanto andou, só sabe que foi muito. Naquelas ruas iguais do Bairro dos Estados perde-se toda a noção relativa de distância e localização. Quando te perguntam quanto você andou, a única resposta que te vem é:
"Três cervejas!"
Não tem ninguém que não entenda.

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Para fins estatísticos, uma cerveja foi calculada em aproximadamente 300 a 450 metros, dependendo do tamanho do gole, e do intervalo entre um gole e outro (que geralmente é de quatro a seis metros).
Essa foi uma idéia desenvolvida por Pedro Henrique.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Enologia no Candeeiro

Freqüentemente nós freqüentadores do centro-histórico e imediações nos deparamos com uma escolha. Difícil para alguns e imediata para outros. Pinheirense ou Carreteiro? Existem alguns fatores a serem levados em consideração que podem ajudar nessa decisão: preço, qualidade, vitaminas, teor alcoólico... Entretanto para uma compreensão completa dessa questão, temos de analisar a fundo a história sociológica do vinho no mundo pós-Revolução Industrial.

Antes da Revolução Industrial, no mundo medieval, e até renascentista, o vinho era um artigo caseiro, cada família tinha sua plantação de uvas, fazia seu vinho no quintal de casa, e os que não tinham acesso a tanta tecnologia iam a tavernas, se reuniam com amigos ao redor de uma garrafa de cerâmica e apreciavam aquela iguaria artesanal. Os mais nobres tomavam vinhos feitos de uvas especializadas, tratadas com o maior cuidado, e em ocasiões especiais (visitas do papa ou de Napoleão). O consumo de vinho era uma coisa muito mais comensalista, havia todo um ritual ao redor do vinho, o sangue de cristo, talvez até por causa de toda essa liturgia cristã que refletia na mente das pessoas.

Veio a Revolução. As coisas foram ficando mais rápidas. As carroças perdiam cavalos e ganhavam caldeiras de carvão e começavam a soltar fumaça enquanto corriam loucamente pelos campos, pelas plantações de uva. Essa rapidez se refletiu na sociedade. Veio também o motor a explosão, e o carro, e a rapidez se popularizou. As pessoas vão ficando cada vez mais apressadas, num processo desenfreado que continua até hoje. Quem é que ia ter esse tempo todo de ficar esperando as tias irem na vinha pisar nas uvas pra poder encher mais um barrilzinho de vinho pra ficar conversando com a família? O proletariado tinha que correr para as fábricas, apertar parafusos, colocar carvão nas caldeiras, e quanto menos demorasse em suas horas de lazer, mais lucro. Por isso o vinho tinha que ser mais rápido também. Comercializa-se.

É aí que entra o Carreteiro. Nosso querido companheiro nada mais é que uma tentativa pós-Revolução Industrial de popularizar e espalhar o vinho entre as pessoas que não têm tempo a perder pisando em uvas. Sua embalagem reciclável e seu preço acessível entretanto não significam que a qualidade é ruim, como muitos pensam. O Carreteiro tem uma relação custo/benefício muito balanceada. Por benefício leia-se teor alcoólico. Uma garrafa é o suficiente para uma noite alegrinha, e duas ou três para uma noite de um bom rock não muito exagerado. O Carreteiro veio salvar a vida de nós, filhos de uma geração meio beat meio pós-Revolução Industrial, que temos pressa mas que temos tempo, embora gostemos de reclamar da falta dele.

Mas tem a outra face da moeda. O Pinheirense. Toda popularização tem seu lado negativo. O forró, nosso querido forró, saiu desconhecido do sertão, Luiz Gonzaga o levou para os quatro cantos do mundo e hoje a gente vê por aí Forró do Muído, Forrókissó e essas bizarrices. É a popularização. Que bom que o forró passou a ser mais valorizado, mas também peraí. De um lado temos o Carreteiro levando o suco de uva fermentado às camadas menos abastadas, e do outro lado temos o surgimento desta mutação enológica. O Pinheirense. Esse fermentado de uva, maçã e às vezes até abacaxi, segundo ouvi. A plastificação do vinho. Ressaca líqüida. O Pinheirense se valeu dessa abertura proporcionada pela nova sociedade à rapidez e à improvisação, e a levou a um extremo. Um extremo terrível. Um extremo fatal. Sério mesmo. Diga não a Pinheirense, porque é foda.

Oxímoro

Era uma vez um cachorro que se chamava Pra Dentro. Um dia seu dono gritou: "Pra Dentro, pra fora!" Aí o cachorro explodiu.